segunda-feira, 2 de março de 2015

# EVANGELHO DO DIA - Comentado


Sede misericordiosos - Lc 6, 36-38

Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado. Uma medida boa, socada, sacudida e transbordante será colocada na dobra da vossa veste, pois a medida que usardes para os outros, servirá também para vós.







Deus é perfeito no amor e na misericórdia

Equivalente ao sermão da montanha de Mateus, é o sermão da planície de Lucas (Lc 6,17-49), que, no relato evangélico, é a sequência do chamado dos Doze apóstolos sobre a montanha, onde Jesus passou a noite em oração (cf. 6,12-16). O “sede misericordiosos” de Lucas corresponde ao “sede perfeitos” de Mateus. Deus é perfeito no amor e na misericórdia. O imperativo “sede misericordiosos” se baseia no que Deus é: misericordioso. A misericórdia de Deus se manifesta na sua bondade para com todos, ingratos e maus, justos e injustos (cf. v. 35), na acolhida dada por Jesus aos pecadores (cf. Lc 5,29-32; 7,36-50; 15,1ss; 19,1-10), na sua iniciativa de ir atrás da ovelha que se perdeu (cf. Lc 15). Cada um, independentemente de sua situação, pôde ou pode experimentar a misericórdia de Deus em relação a si mesmo. O que seria de nós se não fosse o amor de Deus que perdoa sempre? O que é exigido do discípulo em relação ao seu semelhante é exatamente essa misericórdia. O amor aos inimigos não é uma ideia ou um ideal longínquo, quase inatingível; ele se concretiza na renúncia a julgar, isto é, a condenar alguém (vv. 37a.37b), na disposição permanente e renovada de perdoar (v. 37c) e de entregar a si mesmo (v. 38a), como o Senhor se entregou para a salvação de toda a humanidade.

Pe. Carlos Alberto Contieri

Fonte: www.paulinas.org.br

sábado, 28 de fevereiro de 2015

EVANGELHO DO DIA - COMENTADO


A radicalidade no amor - Mt 5, 43-48

Ouvistes que foi dito: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!”. Ora, eu vos digo: amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem! Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus; pois ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos. Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os publicanos não fazem a mesma coisa? E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito.



O amor ao próximo é exigência da vida em Cristo

As antíteses deste trecho do sermão da montanha de Mateus ajudam-nos a esclarecer o específico da vida cristã, como dissemos antes, e dá aos discípulos um critério de ação. A “justiça maior” exigida por Jesus dos seus discípulos é, na verdade, fruto da identificação do discípulo com ele. Essa “justiça” acontece somente quando se ama sem fingimento. A exigência do amor ao próximo e ao inimigo é exigência da vida em Cristo. É a atitude de quem se experimentou amado por Deus, não obstante suas próprias faltas, e de quem tira para o seu relacionamento com os outros as consequências da misericórdia de Deus para com ele (ver: Mt 18,23- 35). Essa é a atitude do misericordioso e do “fazedor de paz”, de quem sabe que o verdadeiro tesouro está em Deus e a sua recompensa nos bens futuros prometidos por Deus. O último versículo é a conclusão das seis antíteses. A perfeição consiste na superação do reducionismo legalista da Lei e na prática do amor fraterno que supera os laços afetivos. A perfeição de Deus consiste em que ele ama sem fazer acepção de pessoas. Ao dizer que “Deus é amor” (1Jo 4,16), o autor está dizendo igualmente que Deus é perfeito.

Pe. Carlos Alberto Contieri
Fonte: www.paulinas.org.br

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

EVANGELHO DO DIA - COMENTADO



Buscai a reconciliação! - Mt 5, 20-26

Eu vos digo: Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus. “Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar deverá responder no tribunal’. Ora, eu vos digo: todo aquele que tratar seu irmão com raiva deverá responder no tribunal; quem disser ao seu irmão ‘imbecil’ deverá responder perante o sinédrio; quem chamar seu irmão de ‘louco’ poderá ser condenado ao fogo do inferno. Portanto, quando estiveres levando a tua oferenda ao altar e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão. Só então, vai apresentar a tua oferenda. Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto ele caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. Em verdade, te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo.

O amor nos torna compassivos e misericordiosos

Nesse itinerário quaresmal, é importante para todos os cristãos crescer na consciência do que é específico da vida cristã. Nosso evangelho de hoje é de grande ajuda para tal. Ele apresenta um modo de agir que supera o legalismo de colorido farisaico, que torna a pessoa prisioneira da letra. Somente o amor pode levar a superar o legalismo; amor que nos torna compassivos e misericordiosos como Deus é misericordioso (cf. Lc 6,36). Não se trata simplesmente da interdição de tirar a vida de alguém (cf. Ex 20,3; Dt 5,7), mas é proibido, na nova lei, depreciar o semelhante dando a ele títulos ofensivos. Não é somente a morte física que é visada na interdição, mas toda ofensa moral cometida contra o irmão (v. 22). Ao contrário, ao discípulo Jesus impõe a exigência de reconciliação. A reconciliação é condição para a oferta de um verdadeiro sacrifício de louvor. Nós poderíamos dizer, a reconciliação é o sacrifício que agrada a Deus; “é a misericórdia que eu quero”, diz Deus (cf. Os 6,6). O esforço de reconciliação requerido e visado nesta antítese é uma explicitação da bem-aventurança da mansidão (5,4). “Manso” (cf. Sl 37,11), em hebraico, corresponde a “pobre”; entenda-se, pobre de espírito (cf. 5,3), isto é, aquele que reconhece e acolhe o Reino de Deus como dom.


Pe. Carlos Alberto Contieri
Fonte: www.paulinas.org.br

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

EVANGELHO DO DIA - COMENTADO



Pedi e recebereis! - Mt 7, 7-12

Pedi e vos será dado! Procurai e encontrareis! Batei e a porta vos será aberta! Pois todo aquele que pede recebe, quem procura encontra, e a quem bate, a porta será aberta. Quem de vós dá ao filho uma pedra, quando ele pede um pão? Ou lhe dá uma cobra, quando ele pede um peixe? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedirem! Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Isto é a Lei e os Profetas.


A oração confiante

O texto do evangelho deste dia é um convite à oração de súplica confiante, pois nesse tipo de oração confessamos nossa própria miséria, uma vez que não podemos nos dar o que pedimos, nem sabemos se o que desejamos é o que Deus quer para a nossa vida. É necessário, no entanto, empenho para conhecer a vontade de Deus. Nosso texto de hoje é parte do sermão da montanha (Mt 5–7), em que Jesus é apresentado como o intérprete da Lei de Moisés. Mas por que pedir, se Deus sabe tudo e conhece profundamente cada pessoa (cf. Sl 138)? Em primeiro lugar, para reconhecer que tudo o que é bom para a vida do ser humano procede do Pai. Em segundo lugar, porque a súplica em favor das necessidades dos outros e das suas próprias abre a pessoa de fé para a relação filial com Deus Pai, que é a fonte de todo verdadeiro bem. A regra de ouro, bem anterior ao Novo Testamento, é não somente conclusão do trecho em questão, mas de toda a seção do sermão da montanha que trata da conduta a ser adotada em relação ao próximo. A regra de ouro é uma regra de solidariedade, que possibilita a convivência pacífica e respeitosa, anterior ao nosso texto e conhecida no mundo pagão. Eclo 31,14-15 apresenta um exemplo de aplicação dessa regra.


Pe. Carlos Alberto Contieri

*Fonte: http://www.paulinas.org.br

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

# EVANGELHO DO DIA - COM COMENTÁRIO


A multidão em busca de um sinal - Lc 11, 29-32

Acorrendo as multidões em grande número, Jesus começou a dizer: “Esta geração é uma geração perversa. Busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas. De fato, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim também será o Filho do Homem para esta geração. No dia do juízo, a rainha do Sul se levantará juntamente com esta geração e a condenará, pois ela veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão, e aqui está quem é mais do que Salomão. No dia do juízo, os ninivitas se levantarão juntamente com esta geração e a condenarão; pois eles mostraram arrependimento com a pregação de Jonas, e aqui está quem é mais do que Jonas”.

É necessário ver para crer?
A fé em Jesus não está subordinada a nenhum ato espetacular e grandioso; ela é dom recebido pelo testemunho daqueles que foram testemunhas oculares de tudo o que Jesus fez e ensinou. Exigir um sinal para crer é tentar Deus. É nesse sentido que os contemporâneos de Jesus o provocam. Há certos esquemas mentais que impedem de reconhecer a visita salvífica de Deus em Jesus, pois defendem o “é necessário ver para crer”. Como no relato das tentações, Jesus se recusa a satisfazer essa exigência tal qual solicitada. Jesus mesmo, toda a sua vida, é um sinal que remete ao mistério de Deus. A evocação do episódio de Jonas serve para apelar à penitência, necessária para acolher o Reino de Deus que se faz presente na pessoa de Jesus (cf. Mc 1,15). É pela penitência que se alcança a purificação do coração, necessária para reconhecer que tudo o que Jesus faz e ensina é sinal; a vida inteira de Jesus é um sinal. O coração livre de todo apego é condição para acolher o mistério de Deus tal qual ele se revela em Jesus Cristo.
Pe. Carlos Alberto Contieri

Fonte: http://www.paulinas.org.br

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

# Homilia da Missa de acolhida do novo bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife - Dom Antônio Tourinho

24 Feb 2015 | Categoria: Formação Notícias
Deixe seu comentário

Primeiro Domingo da Quaresma
Apresentação de Dom Antônio Tourinho Neto
Santuário Basílica do Sagrado Coração – Salesianos 
Brasão_Dom_Saburido
Caríssimos irmãos e irmãs,
O Tempo da Quaresma que tivemos a graça de iniciar na última quarta-feira com a celebração das cinzas é tempo de escuta atenciosa da Palavra do Senhor que vem nos recordar a história de um Deus que caminha conosco e nos conduz à Páscoa. É tempo de silêncio espiritual, de reflexão e oração, tempo de preparação para o encontro com o Cristo – Ressurreição e Vida Nova.
A liturgia de hoje se inspira na catequese batismal. Sobretudo no passado, a quaresma era tempo de preparação para o batismo a ser administrado na noite santa, na Vigília Pascal. Ainda hoje, esse tradicional costume se mantém com o batismo, sobretudo de adultos, na Missa da Vigília. Nessa ocasião, se faz pelo menos a renovação solene das promessas batismais, seguida da aspersão com a água abençoada naquela ocasião.
As duas primeiras leituras da Missa de hoje fazem referência à Arca construída por Noé, instrumento de salvação para os justos. Estes foram poupados do dilúvio que representava, para os antigos, o desencadeamento das forças do mal. Na primeira carta de São Pedro, conforme a segunda leitura está escrito: “À arca corresponde ao batismo, que hoje é a vossa salvação. Pois o batismo não serve para limpar o corpo da imundície, mas é um pedido a Deus para obter uma boa consciência, em virtude da ressurreição de Cristo”. Jesus é, portanto, comparado à Arca que salvou Noé e os seus das águas do dilúvio. Com Ele somos imersos na água batismal e dela ressurgimos renovados, para uma nova e eterna aliança.
O Evangelho das tentações de Jesus vem em seguida ao seu batismo no Jordão quando foi investido pelo Pai com o título de “Filho Amado”. Nos seus 40 dias de deserto, Jesus resume a caminhada do povo de Israel e antecipa também seu próprio caminho de Servo do Senhor. É o “servo sofredor” de que fala o profeta Isaías. No silêncio do deserto Jesus nos ensina que somente pela força da oração e da intimidade com Deus poderemos vencer o mal e nos posicionarmos definitivamente ao lado do Criador e Pai. As tentações sofridas por Jesus no deserto, especialmente no que diz respeito ao Ter, Ser e Poder, são as tentações dos tempos atuais. Com muita facilidade a pobre criatura humana se deixa levar pela enganosa proposta do dinheiro fácil e abundante, assim como, pelo desejo do domínio sobre seus semelhantes. Não podemos, enquanto Igreja de Jesus Cristo, comprometida com os mais pobres e excluídos, nos omitir do nosso compromisso cristão e sim testemunhar pela vida o que professamos pela fé.
Como nos últimos anos, somos convidados nessa quaresma a trabalhar o tema proposto pela Campanha da Fraternidade. Nesse ano: “Fraternidade: Igreja e Sociedade”. E o lema: “Eu vim para servir” (Mc 10,45). Com essa CF 2015, a CNBB quer mostrar a atualidade dos documentos conciliares que, há cinco décadas, vem ecoando por todos os recantos do mundo.Muito, porém, temos ainda a aprender e aplicar dos ensinamentos contidos nesse verdadeiro manancial. Há 50 anos, os bispos de todo o mundo, reunidos no concílio, nos convocam a assumir como nossas “as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade de hoje, sobretudo dos pobres e de todas as pessoas que sofrem, pois essas são também as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos e discípulas de Jesus (GS 1).
“Eu vim para servir” lema da CF-2015, expressa com toda a certeza, os sentimentos do nosso querido irmão de Jequié na Bahia – Dom Antônio Tourinho Neto – que hoje chega para iniciar sua missão como bispo auxiliar desta nossa arquidiocese. Dentre as mais antigas do Brasil, Olinda e Recife tem uma bela história de compromisso missionário, mancada pela coragem de verdadeiros pastores e líderes preocupados com o bem espiritual e social deste querido povo nordestino. Dentre eles não podemos deixar de destacar o 20º Bispo de Olinda – Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira e o VI Arcebispo de Olinda e Recife – Dom Hélder Pessoa Câmara. Ambos falecidos com fama de santidade.
Gostaria, mais uma vez, de expressar a gratidão desta Igreja arquidiocesana pelo corajoso e desprendido SIM do nosso, já tão querido, Dom Antônio Tourinho. Agradecer, igualmente, a sensibilidade do papa Francisco em atender ao nosso apelo. Também a Dom José Rui G. Lopes, OFMCap – Bispo Diocesano de Jequié, que muito nos alegra com sua presença, pela entrega de seu Vigário Geral para o serviço desta Igreja. A partir de agora somos, inevitavelmente, igrejas irmãs e que, coincidentemente, têm Santo Antônio por padroeiro. Agradecer ainda aos seus familiares e amigos que ficarão saudosos deste filho, irmão, tio, primo, amigo e companheiro. Dentre esses, gostaria de destacar a pessoa de sua dedicada mãe, a senhora Edésia Villas-Bôas Tourinho, aqui presente, e seu querido pai que já se encontra na glória de Deus, Senhor Paulo Tourinho Neto. Posso assegurar a todos que Dom Antônio ganhará aqui uma nova e grande família, conforme garante o Evangelho para todo aquele que deixa pai, mãe irmãos e parentes por causa d’Ele e do Reino (Mc 10, 28-31). Não tendo dúvidas que, como em sua terra natal, aqui ele será feliz e cercado de amigos.
É nesse contexto litúrgico quaresmal, portanto, que temos a alegria de apresentar para a Igreja de Olinda e Recife o nosso tão esperado e desejado bispo auxiliar. Ele iniciará o seu múnus pastoral com o retiro espiritual canônico que a partir de amanhã estaremos iniciando em Lagoa Seca, na Paraíba. A exemplo de Jesus que antes de iniciar sua missão retirou-se, durante 40 dias no deserto, conforme o Evangelho de hoje, Dom Antônio estará 4 dias entregue à oração ao lado dos seus irmãos presbíteros e diáconos, reabastecendo-se espiritualmente e rezando por cada um de vocês.
A Constituição Dogmática Lúmen Gentium do Concílio Vaticano II, bastante citada nas reflexões da CF 2015,dedica todo o capítulo III ao ministério episcopal, e assim inicia: “Para apascentar e aumentar sempre o Povo de Deus, Cristo Senhor instituiu na sua Igreja uma variedade de ministérios que tendem ao bem de todo o corpo. Pois os ministros que são revestidos do sagrado poder servem a seus irmãos para que todos os que formam o Povo de Deus e, portanto, gozam da verdadeira dignidade cristã, aspirando livre e ordenadamente ao mesmo fim, cheguem à salvação”. E continua: “Jesus Cristo, Pastor Eterno, fundou a santa Igreja, enviando os Apóstolos, assim como Ele mesmo fora enviado pelo Pai (cf. Jo 20,21). E quis que os sucessores dos Apóstolos, isto é, os bispos, fossem em sua Igreja, pastores até a consumação dos séculos”. A missão do pastor, portanto, nos três graus do sacramento da ordem e, sobretudo do bispo, é apascentar o rebanho do Senhor tendo como modelo Jesus Cristo, o Pastor dos pastores. E nessa missão se preocupar especialmente com as ovelhas tresmalhadas. Recordo as palavras do Papa Francisco no Rio de Janeiro, aos bispos do CELAM. Ele retomou o que teve ocasião de dizer em Roma, aos Núncios Apostólicos, sobre os critérios a seguir ao preparar as listas dos candidatos ao serviço episcopal: “Os bispos devem ser Pastores, próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e misericordiosos; homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como liberdade diante do Senhor, quer a pobreza exterior como simplicidade e austeridade de vida; homens que não tenham psicologia de príncipes; homens que não sejam ambiciosos e que sejam esposos de uma Igreja sem viver na expectativa de outra; homens capazes de vigiar sobre o rebanho que lhe foi confiado e cuidando de tudo aquilo que o mantém unido. Vigiar sobre o seu povo, atento a eventuais perigos que o ameaçam, mas, sobretudo, para fazer crescer a esperança; que tenha sol e luz no coração”. E concluiu: “O lugar do bispo para estar com o seu povo é triplo: ou à frente para indicar o caminho, ou no meio para mantê-lo unido e neutralizar as debandadas, ou então atrás para evitar que alguém se atrase mas também, e fundamentalmente, porque o próprio rebanho tem o seu faro para encontrar novos caminhos.”
O tríplice múnus episcopal, de que fala o ritual das ordenações, de ensinar, santificar e governar, não é uma mera delegação de poder, mas uma comunicação sacramental daqueles mesmos poderes sagrados dos apóstolos, de quem o bispo é sucessor, vinculado a uma série ininterrupta ao longo da história. Consciente do privilégio do chamado e ao mesmo tempo seguro das responsabilidades dele decorrente, nosso bispo auxiliar escolheu por Lema, “OmniaVincit Amor” (O Amor Vence Tudo – Rm 8,35-37). Assim esclarece a descrição heráldica do brasão episcopal: “Trata-se de uma passagem da carta de São Paulo aos Romanos em que o Apóstolo destaca a vitória de Jesus (em Jo 16,33). A vitória de Cristo é vitória nossa, pelo amor que Deus nos demonstrou na obra do seu Filho. O amor é mais forte que a morte e Deus nos ama para além da morte. Deus Pai em sua infinita bondade, pela morte e ressurreição do seu Filho Jesus Cristo, garantiu a nossa vitória por meio do amor vencedor de Cristo. Dom Antônio, no exercício do seu ministério apostólico, quer testemunhar este amor vencedor. Como bispo deseja anunciar o amor de Cristo que é mais forte que o mundo e que a morte. Através do ministério episcopal quer ser testemunha de que esse amor é penhor de ressurreição”.
É no serviço a Jesus Cristo, que se apresenta na face de todo aquele que sofre o peso da injustiça e da dor, nas diversas formas e expressões, que o bispo se sente chamado a exercer o seu múnus. Onde está o bispo, presente está a certeza do poder/serviço, conferido por Jesus à sua Igreja. Assegurada está, a continuidade da vida cristã, uma vez que, somente o bispo pode administrar o sacramento da ordem, gerando novos diáconos, presbíteros e bispos para levar adiante a missão profética e libertadora do Reino de Deus. É conveniente recordar, porém, no espírito do que ensina a catequese quaresmal a que nos referimos inicialmente, que é o sacramento do Batismo que nos abre as portas à participação do Reino. “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura. Aquele que crer e for batizado será salvo” (Mc.16,15-16ª). Trata-se do sacramento comum a todos e que nos torna igualmente: sacerdote, profeta e rei. Dom José Cardoso Sobrinho, nosso arcebispo emérito costumava afirmar: “Eu gosto de repetir que é mais importante ser batizado que ser padre, bispo ou papa”. É claro que sendo o batismo, sacramento de iniciação cristã, não seria possível receber nenhum outro sem primeiramente tê-lo recebido. É bem conhecida a afirmação de Santo Agostinho: “Atemoriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou Bispo, convosco sou cristão Aquilo é um dever, isto uma graça. O primeiro é um perigo, o segundo salvação” (s. 340,1).
Concluo, externando a confirmação de uma aliança com o meu irmão Dom Antônio, extensiva também a Dom Genival Saraiva de França, bispo emérito de Palmares e que temos a honra de tê-lo como nosso Vigário Geral. Trata-se de uma aliança de fraternidade sincera, baseada nos princípios fundamentais do Evangelho. Digo confirmar porque várias vezes manifestamos um para o outro essa intenção. Hoje temos oportunidade firmar solenemente em nossos corações, diante do rebanho que Deus confiou aos nossos cuidados pastorais. Peço a Deus que a nossa unidade seja real e verdadeira, estímulo para todos e bem espiritual e pastoral para nossa missão nessa amada Igreja de Olinda e Recife.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo de Olinda e Recife.

# MENSAGEM DO ARCEBISPO DE OLINDA E RECIFE - DOM FERNANDO - SOBRE A CF 2015 E QUARESMA

Celebração de Cinzas e abertura da Campanha da Fraternidade 2015

18 Feb 2015 | Categoria: Palavra do Arcebispo
Deixe seu comentário

Brasão_Dom_Saburido
Arquidiocese de Olinda e Recife
(Jl 2,12-18; 2Cor 5,20-6,2; Mt 6,1-6.16-18)
Caríssimos irmãos e irmãs,
Na alegria de iniciar mais uma Quaresma, escutemos de corações abertos o apelo: “Convertei-vos e crede no Evangelho!” Forte apelo para acolhermos o Evangelho como de fato é: “Boa Nova da Salvação”, capaz de dar novo rumo e renovado sentido à nossa vida, muitas vezes sem perspectiva ou motivação. Estes 40 dias de retiro espiritual que a quaresma nos proporciona a cada ano, nos asseguram a misericórdia de Deus diante de gestos sinceros de arrependimento e disposição de mudar, conforme nos ensina o profeta Joel na 1ª leitura: “rasgai o coração e não as vestes; e voltai para o Senhor vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo”. A Quarta-feira de Cinzas propõe uma espiritualidade baseada no despojamento de nós mesmos (o jejum), na solidariedade para com todos os irmãos e irmãs (a caridade) e no aprofundamento da nossa intimidade com Deus (a oração). O Evangelho, que hoje nos ensina a prática dessas atitudes, também nos adverte que tudo deve ser feito com presteza e discrição, no propósito de ser visto, apenas, pelo Pai que está nos céus. “E o teu Pai que vê o que está escondido, te dará a recompensa”, palavra que escutamos três vezes neste pequeno texto de Mateus.
O mundo de hoje está cheio de ilusões enganosas, cuja segurança está posta em valores passageiros. As pessoas sentem necessidade de autoafirmação, de serem vistas, reconhecidas e aplaudidas. Estas atitudes contradizem a Palavra de Deus que nos convida à imitação “Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus”, (2Cor 5,21) conforme afirma São Paulo na segunda leitura que escutamos. Mistério que celebraremos no tríduo pascal, e ao qual devemos responder com igual gesto de amor e perdão para com os nossos semelhantes, especialmente para com aqueles/as que nos ofenderam.
Neste ano de 2015, celebramos os 50 anos da conclusão do Concílio Ecumênico Vaticano II. Foi exatamente essa a motivação para a realização da Campanha da Fraternidade com o tema “Fraternidade: Igreja e Sociedade” e o lema “Eu vim para Servir” (cf Mc 10,45). Com essa escolha, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) quer mostrar a atualidade de um documento que, há cinco décadas, vem ecoando por todos os recantos do mundo. Mais que uma instituição juridicamente estruturada, o que não deixa de ser, a Igreja, conforme declara o Documento Conciliar Lumen Gentium (A Luz dos Povos) é um imenso “Povo de Deus”, presente entre os povos e nações de todo o mundo, não se sobrepondo a eles, mas inserindo-se neles, como sal na comida ou fermento na massa (cf Mt 5,13). Portanto, como afirma o cardeal Odilo Scherer em seu artigo sobre a CF 2015: “a identificação pura e simples da Igreja com os membros da hierarquia é insuficiente e inadequada; ela é comunidade de todos os batizados, feitos discípulos de Jesus Cristo e testemunhas do Evangelho”. A Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje Gaudium et Spes(Alegria e Esperança), nos convoca, por sua vez, a assumir como nossas “as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade de hoje, sobretudo dos pobres e de todas as pessoas que sofrem, pois essas são também as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos e discípulas de Jesus (GS, n 1). Concretamente, isso vem acontecendo através das inumeráveis ações sociais da Igreja nos âmbitos da educação e da saúde, através das nossas estruturas: dioceses, paróquias, congregações religiosas e associações de fiéis leigos e leigas.
Por que escolhemos esse lugar para o lançamento desta Campanha da Fraternidade? Estamos no carente bairro dos Coelhos, ao lado das ruínas do Movimento Pró-Criança (da Arquidiocese de Olinda e Recife). Também neste bairro funcionam várias outras instituições ligadas, direta ou indiretamente, à Igreja Católica como: Organização de Auxílio Fraterno – OAF; Casa de Frei Francisco ou Instituto Dom Hélder Câmara; Comunidade Boa Nova que realiza um belo trabalho com dependentes químicos; Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), instalado em edifício de propriedade da Santa Casa de Misericórdia que, por sua vez, congrega várias frentes de trabalhos sociais e filantrópicos. Temos ainda outras ONGS com sede neste bairro. Todas essas organizações visam a educação, profissionalização, saúde, lazer, cultura e cidadania de crianças, jovens e adultos carentes e que são tratados como verdadeiros filhos e filhas de Deus. Trata-se de iniciativas voluntárias, inteiramente gratuitas, feitas com amor e que comprovam aquilo que a CF-2015 nos apresenta: “a vocação libertadora da Igreja em vista da construção de uma sociedade renovada”. É dever da Igreja, exercer sua missão profética de defender a justiça e lutar pela igualdade; e por outro lado, ir ao encontro dos carentes, oferecendo-lhes conforto espiritual e vida nova pelas vias da assistência elementar básica, motivando e suprindo lacunas de governantes omissos, primeiros responsáveis na promoção do bem estar da sociedade. Nos últimos tempos, os ministérios certificadores na área da assistência social, saúde e educação vêm pressionando o Terceiro Setor, no que diz respeito à concessão ou renovação do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social – CEBAS, demonstrando falta de reconhecimento e vontade limitada de estimular as ações sociais da Igreja. Basta ver a quantidade de escolas religiosas ou hospitais filantrópicos, que fecham as portas por não ter condições de atender às tantas exigências, além da concorrência insuportável dos empresários da educação e da saúde.
A Campanha da Fraternidade ao longo dos seus 52 anos de existência tem nos motivado a viver a quaresma nos âmbitos: espiritual e pastoral. A aplicação do tema motiva ao compromisso e solidariedade, conforme ensina o Apóstolo Tiago “De que adianta alguém dizer que tem fé quando não a põe em prática? A fé, se não se traduz em obras, por si só está morta” (Tg 2,14a;17). Sobretudo, nas últimas décadas, as Campanhas da Fraternidade apresentam temas da maior atualidade social e relevância, provocando o debate e apresentando ideias que possam conscientizar e beneficiar a sociedade diante de questões emergentes que exigem mudança de postura. O Objetivo Geral da CF 2015 é “Aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre Igreja e a sociedade, propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus”.
Segundo o texto-base da CF-2015 a urbanização da sociedade brasileira foi muito rápida. Em 1940, a população urbana era restrita a 31%; em 1960, a 45%, e hoje está em torno de 85%. Cerca de 44% dos brasileiros vivem em regiões metropolitanas. Esta rápida urbanização caracterizou-se pela falta de planejamento e resultou em sérios problemas como: favelização, poluição, violência, drogadição, enchentes, mobilidade e precárias condições sanitárias. As pessoas concentradas nas periferias tendem a ser mais afetadas com essas situações. A rápida urbanização da sociedade brasileira, com inchaço das cidades e surgimento de grandes regiões metropolitanas, não foi acompanhada de adequadas políticas de moradias. A favelização retrata desigualdades socioespaciais. Mais de 50% dos domicílios do Brasil não tem coleta de esgoto e, do coletado, menos de 40% recebem algum tratamento. (TB 43 a 45). É diante de preocupantes dados estatísticos como esses que a Igreja procura exercer sua missão profética. Buscando viver a partir do Evangelho, os cristãos propõem um modo de conviver, que não exclua ninguém. As comunidades católicas deverão ser sempre ativas quando se trata da prática da justiça, da participação política, inclusive partidária, (através dos leigos e leigas); da convivência, do cuidado, da solidariedade, da caridade, da autonomia, do acolhimento. As comunidades católicas profundamente ativas na sociedade não se deixarão tomar pela “globalização da indiferença”. Saberão chorar com os que choram e rir com aqueles que riem, conforme nos ensina o Evangelho.
Concluo, lembrando o papel da família como primeira escola das virtudes sociais. “A família é a primeira escola dos valores sociais de que a sociedade tem necessidade. O direito-dever educativo dos pais é essencial, ligado como está à transmissão da vida humana. O dever de educar é original e primário dos pais, pela relação de amor que subsiste entre pais e filhos e não delegável totalmente a outros ou por outros usurpável” (TB 179). Por essa razão, é também dever da sociedade, através de seus representantes legais, garantir o direito das famílias reconhecendo-as como “células primárias da sociedade”. Assim deve-se assegurar a sustentabilidade e proteção legal da família. O papa Francisco afirmou recentemente que a família, fundada no matrimônio entre o homem e a mulher, é um “centro de amor”. Nela deve reinar a lei do respeito e da comunhão, que deve ser fortalecido a fim de que seja capaz de resistir ao ímpeto da manipulação e da dominação da parte dos “centro de poderes mundanos” É no coração da família, diz o papa, que a pessoa se integra com naturalidade e harmonia a um grupo humano superando a falsa oposição entre o indivíduo e sociedade (TB 187).
Desejo a todos um feliz tempo quaresmal e que esse período motivador para a conversão nos prepare para celebrar com amor e dignidade a Páscoa de Jesus e nossa, fazendo amadurecer e crescer, sempre mais, o diálogo e a verdadeira fraternidade entre Igreja e sociedade.
Amém.

                                    Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo de Olinda e Recife